Em estado perene do entre...

“Eu acho que também a pop arte transfigura em arte o que todos conhecem: os objetos e os ícones da experiência cultural comum, o equipamento comum da mente do grupo no momento presente da história”. 
Arthur C. Danto, em Após o fim da arte.

A arte é a faculdade de constituir individualmente, e com liberdade, o ato de realizar formas, emprestado-lhe conteúdo. Mesmo que Duchamp não tenha realizado, mas se apropriado de um forma existente no mundo, esta acaba sempre por sugerir uma criação. Se reivindicamos para a forma a mesma liberdade para o conteúdo, torna-se evidente que a fusão total do conteúdo e da forma por mais imediata que pareça, não se opera por si só, com a espontaneidade de um fato natural, mas também numa fusão entre formas, conteúdos e liberdades em que somente o espírito verdadeiro do artista pode operar.

A arte é uma espécie de necessidade de revelação, aporia emprestada da obra de Bruce Naumann, cujo vocábulo revela que “o verdadeiro artista ajuda a revelar verdades místicas”.  Perseguindo o raciocínio de Hans Belting: a arte antes da arte revelava verdades místicas. E o que revela a arte depois da arte? A condição da existência, responde Arthur Danto. Esta condição da existência são tantas vezes um lugar seguro para o artista que sofre os mal estar das civilizações. Dai o interesse de Danto sobre o Brillo Box e todas as manifestações da Pop arte. A transfiguração do lugar comum, eis a missão do artista pós-moderno.

Os parágrafos anteriores, serve-nos de estrutura mental para discorrer sobre a obra da artista Grabriela Gomes. Primeiro a ligação com a Pop arte, através dos procedimentos formais que indicialmente nos levam as “obras moles” de Claes Oldenborg. Depois por habitar a questão da participação do espectador, o campo da arte fenomenolôgica que  mobilizou todas as correntes pós-minimalistas. Mas devemos evidenciar que para além do uso dos materias, a artista procura evidenciar a forma que dá forma aos meios utilizados. Seu discurso centra-se  numa ironia pós-feministas, que usa da coqueterie para impor um discurso político do corpo. Gabriela frequenta o território onde atuam as artistas Sylvie Fleury (pelo aspecto pós-pop das esculturas em material plástico) e Louise Bourgeois (pelo histórico papel de evidenciar o Self feminino).

 

A obra de Gabriela Gomes constitui-se uma gestalt da função forma, pois as peças deixam suas funções para emprestarem (outro) sentido a forma, e assim necessitam do espectador para fazerem sentido. A artista ilude ao usuário que reconhece a forma a priori, pois seu jogo é um combinatório do utilizável e o não utilizável. O “inutilizável” pelo qual Oscar Wilde professou quando se quis buscar uma utilidade para a arte. “Toda arte é absolutamente inútil”, bradou o bardo irlandês, em mais uma das suas bouttades incontestáveis.

Há uma doce e inquietante ironia nas obras de Gabriela Gomes, pois são formas utilizáveis, cheias de contrastes cromáticos, de uso doméstico, como pufes, chapéus, tapetes, poltronas; outras vezes formas disformes, estimulantes que “sugerem – com amplo grau de subjectividade – diversas utilizações imaginativas, surreais e definitivamente pouco praticáveis: de um colchão fragmentado a um improvável par de asas, passando por um regalo passível de utilização colectiva...”, definiu Rodrigo Affreixo.

O conceito de escultura em Gabriela Gomes expande-se por áreas complementares como as artes plásticas quando confronta o design – o neoplasticismo e a bauhaus como princípio e fim - até chegar à fotografia como uma práctica consensual à inerente condição do artista pós-tudo. Na articulação destas áreas, apresenta objectos escultóricos que reflectem uma pesquisa formalmente invulgar com exploração de novos materiais, associados a imagens digitais.

As obras apresentadas situam-se num percurso de trabalho que explora a dualidade corpo = objecto e as possíveis relações comportamentais que se podem estabelecer entre as obras de arte e o corpo humano. Inserida nas mais recentes tendências das artes plásticas, sobretudo as perfomativas, mesmo que a exibição do objeto se dê em vídeo, fotografia ou registo, a obra de Gabriela Gomes continua claramente a questionar e a reconstruir o papel do objecto artístico. Artista, obra, corpo, objeto, uso, desgaste, tempo, memória, tudo funde-se em um parti pris que a fenomenologia irá chamar de “coisa”.

Voltando ao espírito pós-claesondelborgiano da obra de Gabriela Gomes, percebemos que suas esculturas são como seres em estado perene do entre, pois sempre estão entre o maleável (dos meios) e o rígido (da aparência), entre o usável e o “inusável”, entre veemência e irreverência,  entre o pop (o espírito) e o desgin (o princípio como fim).  Uma lógica consensual entre memória visual e liberdade individual.

 

Paulo Reis
Lisboa, junho de 2006